A maternidade compulsória presente em "Precisamos falar sobre Kevin"
Resenha crítica sobre os temas abordados no filme.
Quando pensamos em maternidade, automaticamente um vida perfeita ao lado do nosso cônjuge e não culpo nenhuma mulher por idealizar tal coisa, visto que na nossa sociedade mulheres que escolhem não ter filhos são motivos de chacota e represálias. Mas, e quando somos obrigadas a exercer uma função que não escolhemos para nós mesmas, e ocupamos apenas para satisfazer os sonhos da outra pessoa?
É exatamente isso que Eva vive no filme “Precisamos falar sobre o Kevin”, uma adaptação literária lançada em 2011 dirigida por Lynne Ramsay. A trama intercala entre passado e presente, acompanhando a vida de Eva, uma mulher que precisa lidar com o fato de que seu filho de 17 anos, Kevin, cometeu um massacre em sua escola e assassinou a irmã e seu pai, marido de Eva.
Confesso que esse filme me cativou por vários motivos. O primeiro é a diferença na narrativa, trazendo as dores de uma mãe após um evento trágico, ocasionado pelo seu próprio filho. O segundo ponto é em como a Eva é apresentada para nós antes de se tornar mãe, uma mulher livre e cheias de senhos, que em momento algum conseguia se enxergar exercendo a maternidade.
Acredito que esse seja isso o principal motivo que prende o telespectador, o fato da Eva se convencer de que aquilo estava certo, e que o seu marido merecia ser feliz, apesar da ideia de ser pai ser uma coisa linda apenas na cabeça dele, e todo peso ficar por conta dela.
Quando Eva engravida de Kevin, é possível notar a rejeição logo no início, fato que se agrava conforme a trama se desenvolve. Após o nascimento de seu primeiro filho, Eva vive um período de Depressão Pós - Parto, uma pequena observação: Em uma entrevista com uma psicóloga sobre o assunto, ela me esclareceu que é possível confundir o chamado “Baby Blues” com a Depressão Pós - Parto, mas há diferenças: O baby blues é considerado uma tristeza comum que a mulher pode sentir nos primeiros dias após o parto, causada apenas por alterações hormonais comuns. A depressão Pós -Parto é quando a mãe sente uma profunda rejeição e não consegue sentir conexão com seu filho, e necessita de acompanhamento de profissionais.
Um dos momentos marcantes no filme ocorre na infância de Kevin, quando vimos que o mesmo sente que sua mãe tenta se “esforçar” para tentar uma conexão e sentir amor por ele, mas Kevin vê isso como uma certa afronta, e tenta provocar Eva para mostrar para ela que ele não merece ser amado. Em um desses episódios, Eva derruba Kevin no chão e acaba quebrando o braço dele, mas a criança ao relatar para seu pai os fatos, ele inventa uma história para manipular e “proteger” Eva.
A todo momento, Kevin é mostrado como uma criança com traços de psicopatia, principalmente por não conseguir sentir amor por nenhum membro da família. Quando sua irmã começa a crescer, ele vê ela como uma ameaça, e em uma das ocasiões ele deixa a menina cega.
No dia do massacre, Eva percebe que algo está errado e corre para a escola, quando vê os corpos dos alunos cobertos de flechas (especialidade do Kevin), e logo em seguida seu filho sendo algemado pelos policiais.
No presente, é notável ver como Eva se tornou apenas uma concha vazia e sem alma, uma mulher que sobrevive no automático e que visita seu filho todos os dias na prisão.
No final, ela pergunta ao Kevin o motivo dele ter feito o que fez, e a resposta do menino é apenas “ No momento eu achei que sabia, mas agora já não tenho certeza”.
O filme é baseado nas vivências e relatos de uma das mães de um dos atiradores do Massacre de Columbine, que ocorreu em 1999 em uma escola nos Estados Unidos, e é por isso que esse filme te atravessa, pelo simples fato de trazer uma perspectiva que a sociedade não está preparada para enfrentar, a que a mãe não tem culpa alguma das atitudes de seus filhos. Na trama, Eva sofre represálias e sente vergonha, principalmente por esbarrar com mães que perderam seus filhos em um massacre.
A ideia desse texto não é minimizar nenhuma atitude em um crime, mas sim olhar para a maternidade de forma realista. A mulher não deveria sentir qualquer tipo de vergonha por não conseguir se imaginar como mãe ou não sentir afeto pela criança, várias mulheres relatam que sentem parte da identidade perdida quando se tornam mães, e é exatamente isso que vemos acontecer com a personagem. Mas, faço um adendo aqui, nada justifica algumas atitudes que Eva toma durante o filme com Kevin.
A trama inteira se desenrola com uma espécie de dança na qual, Eva se esforça para amar Kevin e Kevin se esforça para tentar não odiar a Eva.
A ideia do filme é mostrar que na relação dos dois, não existe um culpado. Eva não queria um filho e Kevin não pediu para nascer, não existe o certo e errado. O erro de Kevin foi ter pego toda essa mágoa e usado como um combustível para cometer uma tragédia.
Por fim é indispensável acrescentar que no filme, não vemos Eva em nenhum momento receber o apoio de seu marido ou de algum profissional. Vemos apenas ela sentir uma culpa e carregar o peso do mundo em seus ombros, o que infelizmente ocorre com aproximadamente 80% das mulheres no Brasil.
Porque para nós, a maternidade é algo palpável e real, não apenas uma ideia igual para a maioria dos homens. A maternidade não é algo para ser idealizado e sim vivido se for escolha dela. Infelizmente a régua moral que a sociedade usa para medir o certo e errado, nos alcança exclusivamente.



amo esse filme! muito legal vê alguém flnd sobre, arrasou!
Olá, estava procurando artigos sobre este filme e encontrei, salvo falha minha, apenas o seu texto aqui no Substack. Já há méritos aqui, porque temas como esse tendem a ficar no armário por muito tempo. Vou publicar um vídeo sobre o filme e vc me ajudou bastante com as reflexões que vez. Obrigado